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Escrever sobre a própria doença não é simples. Há uma tentação de suavizar, de mostrar só o lado da resiliência, de terminar com uma frase de esperança que deixe todo mundo mais confortável. Mas esse artigo não foi escrito para confortar. Foi escrito para ser verdadeiro.

Meu nome é Jaderson Grangeiro. Tenho doença renal crônica estágio 5 e faço hemodiálise três vezes por semana. Isso é a minha rotina desde que o diagnóstico veio, sem aviso, sem sintomas claros, sem tempo para me preparar.

Como o dia começa nos dias de diálise

Acordo cedo. Preciso estar na clínica em horário fixo. Não existe flexibilidade na hemodiálise, não existe remarcar porque o dia está difícil. A máquina espera. O horário é o horário.

Antes de sair, verifico o peso. A variação de peso entre uma sessão e outra indica quanto líquido acumulou. Se bebi mais do que devia, o corpo acusa. E a diálise vai ser mais pesada.

Dentro da clínica

A clínica tem um cheiro específico. Quem conhece, reconhece. Álcool, antisséptico, o ar filtrado das máquinas. As poltronas ficam enfileiradas. Cada paciente tem o seu lugar, o seu horário, a sua equipe que já sabe seu nome, sua veia, seu histórico.

As agulhas entram no acesso vascular. Duas. Sangue começa a circular pela máquina. A sessão começa. Quatro horas.

Durante esse tempo, alguns dormem. Outros assistem a séries no celular. Outros conversam. Eu costumo trabalhar remotamente quando consigo, responder mensagens, tentar manter alguma produtividade. É uma forma de não deixar a doença ocupar mais espaço do que ela já ocupa.

O cansaço depois da sessão

Quando a diálise termina, o corpo passou por um processo intenso de filtragem. A pressão arterial costuma cair ao final. Sair da cadeira exige cuidado. Alguns dias consigo ir embora tranquilo. Em outros, a tontura é forte e preciso esperar antes de me levantar.

Em casa, o cansaço é real. Não é exagero, não é frescura. É o corpo depois de quatro horas com o sangue circulando por fora dele. Na maioria dos dias de diálise, não faço muito mais do que o essencial depois que chego.

A dieta que não tem exceções

Potássio, fósforo, sódio, líquidos. Esses quatro elementos definem o que posso comer e beber. Não é uma dieta de emagrecimento. É uma dieta de sobrevivência.

Alimentos que parecem inofensivos podem ser perigosos: uma banana, uma laranja, uma porção generosa de feijão. O excesso de potássio pode causar arritmia cardíaca grave. Isso não é abstrato. Isso acontece com pacientes que não respeitam a restrição.

Há dias em que olho para um prato de comida comum e sinto a distância entre a vida que tinha antes e a que tenho agora. Não é drama. É só a verdade.

O impacto no trabalho e na renda

Trabalho remotamente como gerente regional de uma universidade. Isso me dá uma flexibilidade que a maioria dos pacientes renais não tem. Mesmo assim, os dias de diálise consomem mais do que as quatro horas da sessão. A concentração fica comprometida. As tarefas que exigem presença física ficam para os outros dias.

Para quem trabalha presencialmente, a equação é ainda mais dura. Muitos pacientes precisam reduzir a jornada, mudar de função ou parar de trabalhar completamente. A renda cai. As contas continuam.

O que sustenta a rotina

Não tenho uma resposta pronta para isso. Sustenta o hábito, porque quando você faz algo três vezes por semana por tempo suficiente, ele deixa de ser uma escolha e vira parte do que você é. Sustenta a consciência de que a alternativa é pior. Sustenta, às vezes, a raiva, que é uma forma de energia como qualquer outra.

E sustenta a possibilidade de ajudar outras pessoas enquanto enfrento a mesma coisa. O Renal Support Brazil nasceu dessa vontade. Não de uma posição confortável de quem já superou. De dentro da rotina, enquanto ela ainda acontece.

Por que escrevo sobre isso

Porque informação real é mais útil do que versões suavizadas. Porque outras pessoas que estão começando a diálise merecem saber o que é, não o que gostaríamos que fosse. E porque visibilidade para a realidade do paciente renal é o que gera empatia, e empatia é o que gera apoio real.

Se você leu até aqui, já sabe mais do que a maioria. E se quiser fazer algo com esse conhecimento, o botão de doação está no site.

Cada sessão custa mais do que a diálise em si.

Transporte, alimentação, medicamentos. Doe diretamente para quem precisa, sem intermediários.

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